16 de abr de 2014

Mascara contra seu preconceito

Há um tempo estava indo ao campus para resolver umas pendências do curso e no meio do caminho entro em um terminal de ônibus e por lá fico até 40 minutos esperando o bendito transporte. Acontece que tenho a mania de observar o mundo e filosofar sobre o assunto. Dai me deparei com uma das cenas mais chocantes da minha vida...

Um pedinte, roupas simples, magro, um pouco sujo, com aquele olhar cansado de quem vive uma vida dura demais. Até ai nada de muito diferente do que se vê todos os dias. O que diferenciava ele do restante das pessoas que já encontrei pedindo é que ele não falava diretamente ou entregava papeis, ele tinha uma placa e nela dizia sobre sua história de vida. Do pouco que me lembro, nessa placa li que ele tinha AIDS, leucemia, três filhos e nenhum trabalho. Havia algo a mais nele que me chamou atenção, ele usava uma mascara daquelas que as pessoas usavam muito na época do vírus da Influenza, só que nenhuma doença dele era contagiosa e dai continuei lendo e no final da placa dizia: USO MASCARA POR CAUSA DO PRECONCEITO.

Me choquei, fiquei meio desnorteada, mal me lembro de como cheguei ao campus ou voltei para casa naquele dia. Porém me lembro perfeitamente daquele senhor com AIDS que pedia dinheiro para comer e que usava máscara para não contagiar ninguém e ele nem tinha percebido que todo mundo ali estava contagiado com o pior tipo de problema que se pode ter: preconceito. Ele não estava protegendo ninguém de suas doenças, ele estava se protegendo de pegar aquilo que todos que olhava torto ou com dó para ele tinham. 

Minha duvida era sobre até onde iria uma pessoa diagnosticada com preconceito agudo, dizem que não se pode confiar nelas, são traiçoeiras e desinformadas. Moramos em um país que ostenta Copa do Mundo, Estádios padrão FIFA, Centros de treinamentos olímpicos, mas educação e informação não são ostentadas por muitos aqui. E quem ostenta é dito idiota. Num país onde a falta de conhecimento é tão grande me pergunto de quem é a culpa. São os professores? Os pais? O governo? A sociedade? A falta de internet para pesquisar sobre o assunto no Google? 

Me sinto de certo modo responsável pela desinformação alheia e me preocupa muito quando encontro quem não se sinta. Afinal hoje é um pedinte que usa máscara contra seu preconceito, ontem foi um grupo de homo afetivos espancados no campus e amanhã será quem?

 Repense.




4 comentários:

  1. Mas ele tem que usar máscara mesmo. Não pelos outros e sim por ele. Se ele tem mesmo AIDS e leucemia ele pode pegar doenças dos outros e uma simples gripe pode ser fatal. Alguém com ambas doenças deveria estar em uma casa hiper higienizada ou internado em isolamento até conseguir se recuperar ao menos do câncer.

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    1. Mas o motivo pelo qual ele usava a máscara não era para cuidar de sí. Era para que os outros não tivessem nojo de conversar com ele. Triste mas verdade.

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  2. Parece falácia do apelo emocional. Ele usou uma para que as pessoas o ajudassem. Não me sensibilizo de forma alguma com coisas assim. O sistema de saúde é público, se ele fosse trabalhador e realmente tivesse ambas doenças ele teria direito a pensão mais um adicional por doença que faria ele ganhar mais doente que quando trabalhasse e se ele não fosse trabalhador e realmente tivesse nessa situação teria direito a assistência social. E essas pessoas sabem os direitos que tem mas preferem se fazer de doentes e apelar para o bom coração dos outros. Quando temos um estado assistencialista não é preconceito o que as pessoas sentem e sim ceticismo. O argumento contra preconceito é válido, mas a pessoa que citou não é o melhor exemplo. Enfim, ele não usava máscara pra fugir de ninguém, ou era pra se proteger ou pra sensibilizar ainda mais as pessoas. Não posso falar dele em específico, mas no eixão tem um cara que afirma ter problemas na perna e que eu, com olhar clínico, não observei nada, mas as pessoas nem olhavam pra ver se era verdade e apenas dava dinheiro pro "coitado". Falácia de apelo emocional é um dos piores níveis a se descer. Eu entenderia uma situação assim em outro país da América do Sul, mas no Brasil me parece certo as pessoas não incentivarem malandragem.

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    1. A placa dele tinha um numero de inscrição e liberação pelo hospital das clinicas, inclusive continha o nome do médico e o crm de quem cuidava dele. De fato pode ser que sim, ele só queria um apelo emocional. Mas ele só usou disso porque de fato existe gente que tem preconceito e falta de informação sobre ambas doenças. Por fim, ele pode até não ser um bom exemplo mas isso nos mostra que se ele tem se aproveitado de um estado de saúde como esse e tem conseguido viver do bom coração alheio é porque esse é um calcanhar de aquiles da nossa sociedade. Mas honestamente, me choquei não pelo pedinte, nem dei dinheiro para ele, muito menos pelo estado dele, me choquei pelo fato de ser usado um argumento desses, mesmo que falacioso.

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